segunda-feira, junho 18, 2018

Agridoce

Era uma luta injusta.
O amor raramente vence. Era fácil se assim não fosse.

Havia uma lição a apreender. Para ambos.

Quando se encontraram, as suas almas depressa se reconheceram. Manifestou-se no à-Vontade, na familiaridade dos gestos, no encaixe perfeito. Uma ligação antiga, anterior à suas memórias, posterior à experiência terrena. Uma ligação que era, em si mesma, a lição a aprender. Ter para perder. Sentir para faltar. Ser para desaparecer.



É pela dor que aprendemos...
Hoje os dois aprendem. Reviver é, ao mesmo tempo, agre e doce.
E nas noites quentes com cheiro a alecrim, a memória certamente os levará ao passado sem saberem se se encontrarão, novamente, num outro futuro.




terça-feira, abril 10, 2018

Lição da ignorância

Ouvi-te à primeira.
Escusas de repetir.

Porque ignoras que simplesmente escolho não fazer o que dizes?

Ouvi-te bem. Clara e correctamente.
Não precisas inundar a minha cabeça com o teu eco não deixando que nada mais ocupe o meu pensamento.

Sei o que dizes. De cor. E só não salteado porque por ordem deve ser dito.

Ouvi-te bem e à primeira.

Mas é a da minha vontade que surge a decisão de te ignorar. Talvez na inocência de alguém que acredita que pertence a si a sua própria vida.

Enquanto a lição não aprendo, a história repito. E enquanto me gritas aos ouvidos, ignorando prossigo. Até ao ponto em que habituada ao barulho, da tua boca só o movimento vejo, como se a um filme mudo assistisse.

terça-feira, janeiro 16, 2018

Verdade

Não espero muito das pessoas. Em geral nada, até.
Opto por deixar à porta quase todos os que, por acaso, ou intencionalmente, se perdem até à minha morada.
Mas daqueles que entram na minha vida, desses espero tudo. Nunca mais do que aquilo que dou.

Não foi preciso crescer muito para perceber que não me identificava com a maioria das pessoas. Se a certa altura isso me perturbou, à medida que me fui conhecendo e percebendo o meu caminho, passei a aceitar (e abraçar) a frase que tantas (e tantas) vezes ouvi: "És uma pessoa difícil de ler".

Hoje acredito que há um propósito em todas as pessoas que cruzam o nosso caminho. Não próprio nem deliberado (ainda que assim o pensem), mas decidido pelo Vida e a aprendizagem que para nós está preparada.
Somos, Todos, peões na vida uns dos outros.
É aqui que me encontro agora. Com esta percepção e certeza de que nada é por acaso. E com tamanha convicção vem a força e a intensidade de sentir que dos poucos a quem me dou realmente a conhecer, espero que nunca, mas nunca, questionem a minha essência.
Procuro viver em verdade. E as mentiras que na minha vida existem são, quando muito, as que digo a mim mesma.
Daí nada ser mais castigador do que perceber em alguém que entrou no meu mundo a incapacidade de, diante de mim, realmente me ver.



Por isso, olha-me nos olhos quando falo Contigo. É neles que me vais encontrar.

Se soubesses...
Como são adagas as palavras que, olhos nos olhos, espetas em mim... Por certo te calarias, seguro que apenas mais uma e deixarias de ver no meu olhar o brilho da Verdade que vejo em ti.




sábado, dezembro 23, 2017

Sim, eu sei




Tu     Que falas comigo - às vezes durante o sono, outras quando de olhos abertos apenas te sinto mas ver-te não sou capaz,
Tu     Que me dizes "coisas", mesmo quando não as quero ouvir - e da minha relutância fazes a tua insistência,
Tu     Que por vezes sussuras, outras gritas - mas nunca em ti calas o que queres dizer,
Tu     Que sempre (mas sempre) aqui estás mesmo quando por momentos te peço ausência,
Tu     Que parte de mim és, sem que em mim alguém te veja,
Tu     Que do aviso fazes caminho, do caminho penitência,
Tu     Que em mim estás...

Por favor, Diz-me agora o que já sei. Apenas para que apaziguado fique o meu espírito e tranquilo o meu ser.

segunda-feira, novembro 06, 2017

Hoje... Tu

Acredito no poder da palavra.
Respeito-a. Muito.
Porque não esqueço as que me dizem, procuro não dizer o que não sinto, preservando ao máximo o significado, a essência, o valor de cada uma.

Desculpa. Obrigado. Amo-te.
São três palavras absolutamente mágicas.

Hoje, minha irmã, deixo-te as três.


Desculpa se momentos houve em que não estive lá para ti. Se de tão dormente pelo meu próprio viver, falhei em ver a mão que não esticavas mas que, encostada ao teu peito, aguardava a minha para a puxar.

Obrigada por tudo o que és:
A mulher linda, sedutora, forte, íntegra.
A amiga que em segundos, a qualquer hora, se enfia no carro e vem em auxílio.
A filha preocupada que cuida, protege, retribui.
O furacão que leva tudo pelo ar e a todos deixa em desalinho apenas porque não consegue calar dentro de si a força da sua verdade.
O ser humano extraordinário na sua luta constante para ser Mais, Melhor.
Obrigada por honrares a tua essência e não recusares as duras lições.

E por fim: Amo-te.
Estás em mim para sempre.

Hoje, comemoramos a tua Existência.

sábado, outubro 14, 2017

Branco, vermelho, cinzento

A cada folha a chama aumentava. Cores diferentes, como se cada uma se alimentasse das palavras que o calor destruía.

Promessas, juras, desejos...

Em minutos o puro branco era cinzento. E o vermelho que tudo consome, não poupa, nem as mais bonitas,  nem as mais repetidas palavras.

Promessas, juras, desejos...

Dias depois, com o objectivo de devolver o cinzento ao Imenso Azul, encontro pedaços que o fogo não queimou. Pedaços de branco que de tão puros não houve vermelho que os tingisse.

Decido não questionar o quê ou o porquê de tal boicote. Escolhi o fogo por ser antagónico a mim. Pouco criterioso, devastador, devia cumprir o efeito e, sem selecções, dizimar promessas, juras, desejos.
Traiu-me e parece que não só ignorou a sua natureza democrática, como escolheu, melhor do que eu alguma vez poderia fazer, as palavras que não quis queimar.

quinta-feira, setembro 07, 2017

Doce castigo

Gosto de sentir a água gelada nos ossos. O frio que primeiro o meu corpo rejeita e depois abraça como se dele precisasse.
Hoje deixei-me ficar quieta enquanto as ondas batiam em mim. Não dei um passo em frente para evitar a rebentação, não elevei o corpo à passagem das vagas nem mergulhei por baixo delas.
Quieta apenas, enquanto uma após outra, esbarravam em mim as ondas do imenso azul.


Como um aluno que entrega a mão à palmatória, receoso da dor mas certo de a merecer,