quinta-feira, setembro 07, 2017

Doce castigo

Gosto de sentir a água gelada nos ossos. O frio que primeiro o meu corpo rejeita e depois abraça como se dele precisasse.
Hoje deixei-me ficar quieta enquanto as ondas batiam em mim. Não dei um passo em frente para evitar a rebentação, não elevei o corpo à passagem das vagas nem mergulhei por baixo delas.
Quieta apenas, enquanto uma após outra, esbarravam em mim as ondas do imenso azul.


Como um aluno que entrega a mão à palmatória, receoso da dor mas certo de a merecer,

sábado, julho 08, 2017

Oiço-te

Em cima do muro.
Não é a primeira vez que aqui estou.
Em todas elas odiei aqui estar.

Sentada, pernas caídas ora para um lado, ora para outro. Às vezes em pé, para trás e para diante, teste de equilibrista passado.

Dividida. Duvidida.
E perdida... e questionada... e incerta.

Em cima de um muro que eu própria ergui, tijolo a tijolo. Todas as pedras fui eu quem as encaixou, decisão a decisão, palavra a palavra, passo a passo.
Um muro que separa dois mundos. Ambos meus . Ambos válidos porque válidas são todas as escolhas e se julgamentos não faço, julgamentos não espero.

Um muro que cresce mais e mais a cada dia, sempre que protelo dele descer... ou para um lado ou para outro.
E se no equilíbrio teimo, certa estou que um momento de distracção me fará cair e tomar a decisão que evito -  obrigada, forçada, pelo rumo de um dos dias que vão chegando sem parar.

Balanço tomado. Descer não chega. Há que saltar. Determinada mas igualmente receosa pois sei que escolhido o terreno, perderei de vista o que ficará do lado de lá.


Vamos.
A minha intuição nunca me falhou mas eu já falhei à minha intuição.

domingo, julho 02, 2017

É Real

Quando à noite me encontras, o que fazes?

Como tocam os teus dedos no meu cabelo? Gentilmente, deslizando pelo ondeado das minhas madeixas? Ou com firmeza, segurando as raízes, puxando para trás a minha cabeça e deixando exposto o pescoço?

Como o beijas de seguida? O pescoço?
Com delicadeza, beijos suaves e boca semiaberta Ou vorazmente? Com um apetite que não conheço em mais ninguém, mordendo, arrastando os dentes pela pele que, marcada, se arrepia a cada toque?

Que me sussurras ao ouvido? Que sou tua e que mais ninguém me terá? Que depois de ti o meu corpo jamais responderá a outro toque que não o teu?


Quando à noite me encontras, desejas não acordar?
Para que viva em ti a memória que a dormir se torna, novamente, real.


quarta-feira, junho 28, 2017

Não temas

É medo? Que sentes? 
Quando te lembras? De como sem esperar podes de repente encontrar no caminho aquilo que mais evitas?

Medo. Do que sentiste (e podes voltar a sentir) se de repente essa força que finges tão bem desapareça no momento em que desapareça também a distância de que se alimenta?

Medo. De não te sentires capaz de lutar contra o que o teu coração pede, a tua alma recorda e a tua cabeça contraria?

Medo. De perceberes que estás errado. Que tudo aquilo em que acreditas é um castelo de cartas que insistes em fazer crescer sem perceber que apenas mais uma carta o fará ruir?

Medo. Sim. É medo.


Suspeito que saibas já. Que a força que tens é trança de Sansão e a lâmina afiada do destino aguarda pacientemente.

sábado, maio 20, 2017

Sedutora...

E de repente ela bate à porta.
Vem decidida. Linda. Não há como não colar os olhos em si.
O vestido...  justo, colado, deixa ver as curvas delineadas. E em cada uma delas... uma memória, uma recordação.
O cabelo sedoso, atado numa trança onde cada entrelaçado é uma história e cada madeixa, um episódio. Desmancha-a num gesto lento e sedutor e, diante dos meus olhos, revejo tudo - como se de um filme se tratasse.
Cheiros, imagens, toques... Chegam sem avisar como um murro no estômago. E num segundo vivem de novo em mim.

Peço-lhe que saia. E enquanto a vejo partir - de costas voltadas e movimentos ondulantes -  fico dividida entre a sedução das memórias que em mim acendeu e a tristeza que depois se instala quando desvanecem como fumo.

Oh, Puta de saudade que bateste à minha porta e eu, sem saber, abri. Hoje, logo hoje.

quinta-feira, maio 11, 2017

Estou a ir...

Pinto os lábios. Vermelho.
Brilho nos olhos e ar no peito. Mas pouco. Muito pouco..
A luz baixa, O som suave... e a noite que se aproxima. Que espera, na verdade.

Acordo para notar a mordedura da noite - tão negra quanto iluminada, tão agre quanto doce. E a marca fica em mim.
Uma marca sem memória.

Faço o caminho até uma imensidão azul onde, dia após dia, encontro a calma. Oiço as ondas que recolhem a areia para si. E o som recorda-me. Transporta-me.

O reflexo do imenso pinta-me os olhos. Azul.
Brilho nos olhos e ar no peito. Muito. Cada vez mais...
A luz forte, o som intenso... e o dia que nasce. Que espera, na verdade.

terça-feira, maio 09, 2017

A andorinha



De repente não sei quem és.
Não adivinho onde estás. Não imagino o queres. Nem sequer me passa pela cabeça com que ocupas as horas do teu dia.

De repente não me lembro. Não sonho. Não espero. E do "não" que tudo é, um sim começa a ser - tímido mas decidido.

De repente. A esperança, a certeza, a vontade... desvanecem. E de repente, de repente... O presente já não se alimenta do passado para construir o futuro.

De repente és o Tudo de alguém e o Nada que passou.
De repente. Sempre de repente.
Como veio, partiu.

E repente, também de repente, na asa de uma andorinha, a Primavera chegou.