segunda-feira, novembro 06, 2017

Hoje... Tu

Acredito no poder da palavra.
Respeito-a. Muito.
Porque não esqueço as que me dizem, procuro não dizer o que não sinto, preservando ao máximo o significado, a essência, o valor de cada uma.

Desculpa. Obrigado. Amo-te.
São três palavras absolutamente mágicas.

Hoje, minha irmã, deixo-te as três.


Desculpa se momentos houve em que não estive lá para ti. Se de tão dormente pelo meu próprio viver, falhei em ver a mão que não esticavas mas que, encostada ao teu peito, aguardava a minha para a puxar.

Obrigada por tudo o que és:
A mulher linda, sedutora, forte, íntegra.
A amiga que em segundos, a qualquer hora, se enfia no carro e vem em auxílio.
A filha preocupada que cuida, protege, retribui.
O furacão que leva tudo pelo ar e a todos deixa em desalinho apenas porque não consegue calar dentro de si a força da sua verdade.
O ser humano extraordinário na sua luta constante para ser Mais, Melhor.
Obrigada por honrares a tua essência e não recusares as duras lições.

E por fim: Amo-te.
Estás em mim para sempre.

Hoje, comemoramos a tua Existência.

sábado, outubro 14, 2017

Branco, vermelho, cinzento

A cada folha a chama aumentava. Cores diferentes, como se cada uma se alimentasse das palavras que o calor destruía.

Promessas, juras, desejos...

Em minutos o puro branco era cinzento. E o vermelho que tudo consome, não poupa, nem as mais bonitas,  nem as mais repetidas palavras.

Promessas, juras, desejos...

Dias depois, com o objectivo de devolver o cinzento ao Imenso Azul, encontro pedaços que o fogo não queimou. Pedaços de branco que de tão puros não houve vermelho que os tingisse.

Decido não questionar o quê ou o porquê de tal boicote. Escolhi o fogo por ser antagónico a mim. Pouco criterioso, devastador, devia cumprir o efeito e, sem selecções, dizimar promessas, juras, desejos.
Traiu-me e parece que não só ignorou a sua natureza democrática, como escolheu, melhor do que eu alguma vez poderia fazer, as palavras que não quis queimar.

quinta-feira, setembro 07, 2017

Doce castigo

Gosto de sentir a água gelada nos ossos. O frio que primeiro o meu corpo rejeita e depois abraça como se dele precisasse.
Hoje deixei-me ficar quieta enquanto as ondas batiam em mim. Não dei um passo em frente para evitar a rebentação, não elevei o corpo à passagem das vagas nem mergulhei por baixo delas.
Quieta apenas, enquanto uma após outra, esbarravam em mim as ondas do imenso azul.


Como um aluno que entrega a mão à palmatória, receoso da dor mas certo de a merecer,

sábado, julho 08, 2017

Oiço-te

Em cima do muro.
Não é a primeira vez que aqui estou.
Em todas elas odiei aqui estar.

Sentada, pernas caídas ora para um lado, ora para outro. Às vezes em pé, para trás e para diante, teste de equilibrista passado.

Dividida. Duvidida.
E perdida... e questionada... e incerta.

Em cima de um muro que eu própria ergui, tijolo a tijolo. Todas as pedras fui eu quem as encaixou, decisão a decisão, palavra a palavra, passo a passo.
Um muro que separa dois mundos. Ambos meus . Ambos válidos porque válidas são todas as escolhas e se julgamentos não faço, julgamentos não espero.

Um muro que cresce mais e mais a cada dia, sempre que protelo dele descer... ou para um lado ou para outro.
E se no equilíbrio teimo, certa estou que um momento de distracção me fará cair e tomar a decisão que evito -  obrigada, forçada, pelo rumo de um dos dias que vão chegando sem parar.

Balanço tomado. Descer não chega. Há que saltar. Determinada mas igualmente receosa pois sei que escolhido o terreno, perderei de vista o que ficará do lado de lá.


Vamos.
A minha intuição nunca me falhou mas eu já falhei à minha intuição.

domingo, julho 02, 2017

É Real

Quando à noite me encontras, o que fazes?

Como tocam os teus dedos no meu cabelo? Gentilmente, deslizando pelo ondeado das minhas madeixas? Ou com firmeza, segurando as raízes, puxando para trás a minha cabeça e deixando exposto o pescoço?

Como o beijas de seguida? O pescoço?
Com delicadeza, beijos suaves e boca semiaberta Ou vorazmente? Com um apetite que não conheço em mais ninguém, mordendo, arrastando os dentes pela pele que, marcada, se arrepia a cada toque?

Que me sussurras ao ouvido? Que sou tua e que mais ninguém me terá? Que depois de ti o meu corpo jamais responderá a outro toque que não o teu?


Quando à noite me encontras, desejas não acordar?
Para que viva em ti a memória que a dormir se torna, novamente, real.


quarta-feira, junho 28, 2017

Não temas

É medo? Que sentes? 
Quando te lembras? De como sem esperar podes de repente encontrar no caminho aquilo que mais evitas?

Medo. Do que sentiste (e podes voltar a sentir) se de repente essa força que finges tão bem desapareça no momento em que desapareça também a distância de que se alimenta?

Medo. De não te sentires capaz de lutar contra o que o teu coração pede, a tua alma recorda e a tua cabeça contraria?

Medo. De perceberes que estás errado. Que tudo aquilo em que acreditas é um castelo de cartas que insistes em fazer crescer sem perceber que apenas mais uma carta o fará ruir?

Medo. Sim. É medo.


Suspeito que saibas já. Que a força que tens é trança de Sansão e a lâmina afiada do destino aguarda pacientemente.

sábado, maio 20, 2017

Sedutora...

E de repente ela bate à porta.
Vem decidida. Linda. Não há como não colar os olhos em si.
O vestido...  justo, colado, deixa ver as curvas delineadas. E em cada uma delas... uma memória, uma recordação.
O cabelo sedoso, atado numa trança onde cada entrelaçado é uma história e cada madeixa, um episódio. Desmancha-a num gesto lento e sedutor e, diante dos meus olhos, revejo tudo - como se de um filme se tratasse.
Cheiros, imagens, toques... Chegam sem avisar como um murro no estômago. E num segundo vivem de novo em mim.

Peço-lhe que saia. E enquanto a vejo partir - de costas voltadas e movimentos ondulantes -  fico dividida entre a sedução das memórias que em mim acendeu e a tristeza que depois se instala quando desvanecem como fumo.

Oh, Puta de saudade que bateste à minha porta e eu, sem saber, abri. Hoje, logo hoje.

quinta-feira, maio 11, 2017

Estou a ir...

Pinto os lábios. Vermelho.
Brilho nos olhos e ar no peito. Mas pouco. Muito pouco..
A luz baixa, O som suave... e a noite que se aproxima. Que espera, na verdade.

Acordo para notar a mordedura da noite - tão negra quanto iluminada, tão agre quanto doce. E a marca fica em mim.
Uma marca sem memória.

Faço o caminho até uma imensidão azul onde, dia após dia, encontro a calma. Oiço as ondas que recolhem a areia para si. E o som recorda-me. Transporta-me.

O reflexo do imenso pinta-me os olhos. Azul.
Brilho nos olhos e ar no peito. Muito. Cada vez mais...
A luz forte, o som intenso... e o dia que nasce. Que espera, na verdade.

terça-feira, maio 09, 2017

A andorinha



De repente não sei quem és.
Não adivinho onde estás. Não imagino o queres. Nem sequer me passa pela cabeça com que ocupas as horas do teu dia.

De repente não me lembro. Não sonho. Não espero. E do "não" que tudo é, um sim começa a ser - tímido mas decidido.

De repente. A esperança, a certeza, a vontade... desvanecem. E de repente, de repente... O presente já não se alimenta do passado para construir o futuro.

De repente és o Tudo de alguém e o Nada que passou.
De repente. Sempre de repente.
Como veio, partiu.

E repente, também de repente, na asa de uma andorinha, a Primavera chegou.


quinta-feira, maio 04, 2017

Será suficiente

Confessa.
Confessa o que já sei. O que sempre soube. O que soubemos os dois desde sempre.
Confessa.

E depois...
Depois, recua. Dá um passo atrás - um é suficiente. E recorda-te. Recorda como é bom estar aqui. Como tudo faz sentido. Como tudo se encaixa.
Recua.

Agora, tenta.
Esforça-te. Luta. Persiste.
Porque vale a pena. Porque é a sério. Porque anos... e meses... e dias... trouxeram-nos até aqui e é aqui que devemos estar. Por isso, não desistas. Luta.

Sente. O amor, o carinho, a ligação. Não afogues esse sentimento em razões, motivos, lógica sem lógica.
Sente. E sentir será suficiente.



domingo, abril 30, 2017

Somos

"As coisas vulgares que há na vida, Não deixam saudade
Só as lembranças que doem, Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história, Da história da gente
E outras de quem nem o nome, Lembramos ouvir"




Palavras de Jorge Fernando, poema Chuva.
Quanto a mim, encerram em si muito mais do que à partida pode parecer. Encerram em si a Verdade daquilo que nos une a todos.

Quantos de nós já conhecemos alguém com quem sentimos uma ligação imediata? Quantas vezes entram pessoas nas nossas vidas, de rompante, como se dessem um pontapé na porta, entrando sem pedir licença, ocupando um espaço que pareceu estar sempre ali à sua espera?

Pode ser uma coisa tão simples como um amigo de um amigo, de um amigo, ao lado de quem ficámos sentados naquele jantar de aniversário. Ainda sem uma palavra e já há qualquer coisa que nos puxa... uma energia, um bem- estar, um à-vontade sem explicação. Como, se é apenas um desconhecido?  - Será mesmo?
O mesmo no sentido contrário. Aquela pessoa que nunca nos fez mal, com quem não tivemos nenhum desentendimento mas cuja energia nos afasta, nos causa repulsa...

A verdade é que somos energia. Pura. Forte. Essencial ao nosso ser.

Acredito que estas ligações estão para além do factor "energia" em que tendemos a procurar energias semelhantes à nossa.
Acredito que em momentos como estes, reconhecemos na pessoa à nossa frente, uma alma com quem nos cruzámos antes. E de repente, num nível de conhecimento que não dominamos e no qual não estamos habituados a operar, as nossas almas reconhecem-se e abraçam-se sem que percebamos. Vidas, percursos, histórias e aprendizagens em comum... Num segundo, recordamos tudo sem disso ter memória.

Nem sempre as pessoas com quem sentimos esta ligação ficam muito tempo na nossa vida.Isso não quer dizer, contudo, que as esqueçamos.
A intensidade do laço e do que vêm a representar na nossa vida presente nada tem a ver com tempo. Nada. Aliás, tempo é uma variável sem sentido aqui.

Estamos todos unidos. TODOS. A nossa energia individual faz parte de uma energia Global que nos une. E não importa o tempo, a distância, a fase da nossa vida... Temos a capacidade de sentir e pressentir Aquela energia.

Eu sinto a tua. Tu sentes a minha?





terça-feira, abril 25, 2017

Suspeito

Suspeito que pensas em mim, como eu penso em ti.
Suspeito que me queres, como eu te quero.
Suspeito que questionas, como eu questiono.

E do nada, a vida traz-te. E do nada, Oiço-te. E do nada transpiras tudo o que a custo tens guardado.
Não há tempo. Distância não existe. Apenas vontade. Saudade. E verdade - porque é em verdade que não calas tudo o que agora dizes.

Suspeito que duvidas, como eu duvido.
Suspeito que sonhas, como eu sonho.
Suspeito que... quiséssemos os dois, nada nos pararia.

E do nada, o nada ainda. Que o tudo... Esse...
é tudo menos fácil.

sábado, abril 22, 2017

Sentir

Quero sentir.

A alegria do recomeço. A protecção do abraço. O entusiasmo da descoberta. A curiosidade do que pode vir a ser.

Quero sentir que posso. Que sim. Que vou. Que é.

Quero sentir. A  mão, a boca, a pele.
E o movimento, o tremor… o segundo em que tudo pára.

Quero o tudo e o nada. O lento, muito lento…  e o rápido, intenso.

Quero sentir. O toque. Meigo e paciente…  de repente, forte, vigoroso e ansioso.
Quero sentir. Que tem que ser agora. Que não pode esperar. Que a pele arde e só a mão que agarra a cintura e puxa para si, apaga o fogo.

Bebo, saboreio e sinto

Um chá. Frutado e doce. Quente, muito quente, mexido com pau de canela, bebido lenta e cuidadosamente.
Um chá. Preparado ao acaso. Bebido sem fazer caso. E através da pele, podia jurar que se via, gota a gota, gole a gole, a água quente a descer pela garganta.
Um chá. Numa tarde de Primavera. A primeira naquela história, a última naquele encontro.
Um chá. Oferecido mas roubado. O copo cheio, a alma vazia. E o coração ansioso.

Um chá hoje. E depois e depois. E depois… já não.

domingo, março 19, 2017

Sempre

Não te vejo. Defronte a ti, olhos nos olhos. Mas não te vejo.

Atravessas-me e segues até à porta. Apenas o sei porque numa fracção de segundo a sombra do que adivinho seres, deixa-se ver. Uma fracção de segundo. E pelo canto do olho.

Podia ter receio de ti. Não. Nenhum. Não sei porquê mas não tenho - Cai por terra a máxima de que receamos o que desconhecemos.

Não te vejo. Sinto-te, porém. Serias a mais presente das companhias não fosse a ausência a tua definição. Ausência de forma, de cheiro, de cor...Ausência. E no entanto, aqui estás. Ocupando um espaço que não existe.

Estás aqui todos os dias, mesmo quando a ausência é tão forte, mas tão forte, que não há fracções de segundo que te detectem. Estás também quando a vontade de me fazeres compreender algo te obriga a acordares-me - a luz forte nos olhos desperta qualquer um - e eu acordo para te ouvir. Estás ainda quando me poupas a despertares nocturnos mas povoas os meus sonhos, construindo histórias que me acompanham durante dias - bravo, conseguiste mais uma vez.

Não te vejo. Defronte a ti.
Mas sei que aqui estás.

sábado, março 04, 2017

Memória

Agora, Agora, Agora.

Vou repetir: Agoooora.
Percebeste? Sim, percebi. Agora sim. Agora. É isso?
Sim, é. Agora.


Fala comigo todos os dias. Acho mesmo que se senta antes de cada discurso, cansado que está de tanto ensaiar, palavra a palavra , tudo o que me dirá.
Tem boa intenção. Quer proteger-me, claro. Para isso usa o que sabe, o que conhece, o que lhe é familiar, o que já viveu. Porque para ele só isso existe .
Para me poupar a um novo sofrimento, recorda-me uma e outra... e outra vez. Para que se perpetue em mim a lembrança e com ela venha a cautela. Ele vive lá. No que foi e aconteceu, - e com as linhas do passado escreve os textos do futuro. "Tem cuidado", sussurra. Mas o resto... o resto grita. Alto -  tão alto que não me deixa dormir.
Lá vem de novo. A mesma lembrança, o mesmo momento. Quer à força conservar o que procuro esquecer.
Aprendi que tenho que falar com ele também. E faço-o. Agradeço a intenção. Explico que não posso mudar o passado nem prever o futuro pelo que me resta viver no Presente. Ele percebe. Por pouco tempo, contudo.

Puxa-me para o que conheço porque receia o que não viveu. É uma âncora para o familiar, o cómodo, o habitual. Devo-lhe muito, eu sei. Porque não existe aprendizagem terrena sem ele. Mas estou a aprender também que posso e devo tomar as rédeas desta relação. É agora, eu sei, E o meu EGO, resignado, ocupa o seu lugar.

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

Olhar em frente

Era linda. Frágil e delicada. Azul celeste. O coração amarelo, quase laranja. Linda.
-Viste? Perguntei entusiasmada.
Não, não tinhas visto. Não tinhas olhado para lá. Nem tão pouco quiseste olhar depois de te descrever a flor mais bonita que alguma vez. vi.


Era linda. E tu passaste por ela a 20 centímetros. Olhos postos no chão. E mesmo assim... Não viste.
-Estava atento ao chão, não percebes? A tua resposta - rápida, quase disparada - era em si uma explicação. Pretendias tu.
Porque já ali passaste. Porque uma... e outra... e outra vez ali tropeçaste. Da primeira vez foi só um tropeção. Mas houve outras em que caíste mesmo. Custou levantar, eu sei. Não queres cair novamente. E por isso... Vês cada centímetro do caminho. Bem, do chão, na verdade. Porque o caminho... esse não vês.

Olhas para o chão - sempre à procura do próximo obstáculo na esperança que a tua atenção te impeça de cair... outra vez.
Olhas para o chão. E eu? Não te posso censurar. Os joelhos esfolados doem. Mais ainda doem as mãos que uma e outra e outra vez (já aqui foi dito) usaste para, com esforço, te elevares.
Olhas para o chão porque a cautela trouxe consigo a frustração. Depressa o «Porquê» sem resposta dá origem à maior dor, a da alma.
Olhas para o chão. E os teus olhos cansados parecem já não ver nada mais que o pior.

Acredito que em breve vás olhar em frente. Porque sei que algo te trouxe até aqui. Aprender custa mais do que imaginámos no momento em que nos propusemos à lição. Somos prisioneiros do nosso ego, sem o qual não poderíamos identificar os nossos desafios mas que quase sempre nos tolda o julgamento e nos impede de ver para além do óbvio.
Acredito que em breve vás olhar em frente. Porque ao olhar para o chão será inevitável que um dia percebas que alinhados com os teus pés estão outros... os dos que te acompanham. Sempre.








domingo, fevereiro 05, 2017

Silêncio

Façamos um pacto.
Ficamos em silêncio. Eu não digo uma palavra. Tu também não. E vemos qual dos dois fala mais.

Serão os meus olhos? Correndo o teu rosto, olhando, com movimentos rápidos vendo cada milímetro e procurando o sorriso a que me habituei.
Será o teu coração? Que encostado ao meu, oiço a bater desenfreado enquanto nos abraçamos sem nunca querer largar. Nunca! Nunca mais largar...
Será a minha mão? Que desliza pelo teu braço, para cima e para baixo, para cima e para baixo novamente, dando um carinho mas na verdade memorizando o toque do teu corpo.
Ou serão as tuas lágrimas? Que vejo correr sem parar, apenas para se encontrarem com as minhas enquanto te encostas no meu peito?


Falámos tanto. Tanto. Tanto. Tanto. Dissemos tanto um ao outro.
Eu disse que te amava. Tu repetiste que me amavas também. Com mais convicção ainda eu disse que sinto a tua falta e tu respondeste que todos os dias pensas em mim. Eu perguntei-te «Porquê?». Tu respondeste «Queria eu saber».
Dissemos tanto. E das nossas bocas não saiu... uma palavra.


terça-feira, janeiro 17, 2017

Prometo



Fechei os olhos na esperança de que a escuridão me desse descanso. Mas uma lua, cheia, branca, brilhante, nasceu no horizonte para que não me esqueça que sempre que um dia acaba outro recomeça… algures.
Fechei os olhos na esperança de que as recordações me deixassem em paz mas a memória (traiçoeira) apenas me falha quando dela preciso e agora( logo agora!) trouxe-me à lembrança tudo o que procuro esquecer.
Fechei os olhos na esperança de que me faltassem os pormenores mas em mim ficou gravado cada cheiro, cada cor, cada toque e já não sei se não é a memória mais real do que o que foi nela guardado.

Pergunto-te para quê? Porquê? Porque conservas em mim esta reminiscência que traz de arrasto a saudade e em nada me apazigua? Porque me torturas com a recordação do que já não existe em mim mas de mim não desaparece? Porque me feres com uma espera pelo que pode não ter regresso?

Não podes tu escrever a lição num papel para que eu leia? Prometo lê-lo até à exaustão. Ler, reler e ler mais uma vez. Prometo repetir uma, duas, cem, MIL vezes – as que quiseres – em voz alta até que de mim faça parte tal aprendizagem. Prometo. Mas por favor poupa-me. Poupa-me  ao reviver constante do que outrora foi presente e futuro mas que agora é… apenas… passado.


quinta-feira, janeiro 12, 2017

Aprende primeiro

Pensavas que era fácil?
Ir embora e não olhar para trás? Ficar por perto e não olhar em frente?
Nem uma coisa nem outra.

Agora estás num impasse. Numa encruzilhada. A tua primeira, calculo -  tal te poupou a vida.
Daí pensares ser fácil.

Porque é da paixão que a nasce a alegria mas também a dor. E quem não ama... pois claro, não sofre.

Agora amas. Mas não fazias ideia. Julgavas que sim. E a vida, que tanto gosta de connosco brincar, mostrou-te que não.
Bem sei que não estás habituado a aprender. Custa. Dói. Mas pela primeira vez não ditas regras. E quanto mais lutas contra o que sentes, mais te afundas na dor.

Tanta certeza, tanta segurança, tanta força. E agora? De nada valem. Porque só agora, só neste momento, estás a viver pela primeira vez: a sentir pela primeira vez.

Pensavas que era fácil...
Porque estavas dormente. Porque aquilo que consideravas que era viver era afinal... existir apenas.

Quando traçamos uma linha recta com a convicção de a seguir sem desvios... somos a vítima perfeita do destino que, curva após curva, nos conduz para longe do que tantas vezes julgámos certo e correcto.



segunda-feira, janeiro 02, 2017

Primavera

Escrevo.
Escrevo diariamente, senão a cada dois dias, no máximo. Às vezes textos longos, outras vezes frases soltas que sem me aperceber dão aos mãos entre si.
No entanto, de tudo o que escrevo pouco é o que partilho - não sei se partilhar é o termo correcto porque na verdade isso implicaria que alguém o recebesse. Talvez... assumir. Assumir é a palavra certa - de tudo o que escrevo, pouco é o que estou disposta a assumir.
Escrevo sobre o que sonho, o que vejo, sobretudo o que sinto. A alegria liberta algumas palavras mas é da dor que nascem os parágrafos.

Foi-me dito que ao escrever me aproximo da minha essência. Talvez porque permite a transposição de  sentimentos para uma dimensão... mais real, diria. Desejos, receios, alegrias, dúvidas e tristezas deixam de ser abstractos para que possam ser focados. Talvez.

Quando escrevo tenho tendência para fazer perguntas. Nem sempre lhes encontro resposta, embora saiba que qualquer pergunta, antes de nascer, encerra em si mesmo uma resposta. Nem sempre as respostas estão ao nosso alcance, da mesma forma que às vezes surgem bastante mais tarde, quase que fora de contexto - pensamos nós.

Como dizer adeus a algo que foi tão importante para nós? Como fechar uma porta que desejamos aberta - escancarada na verdade? Como? Não sei, mas faço-o.
Vou percebendo, no entanto, o porquê:  Porque esse algo tão importante não o é mais do que o respeito que temos por nós próprios. Porque essa porta aberta é como uma corrente de ar que todos os dias nos deixa doentes.
E é aí que chegam outras respostas.
Porque se eu colocar em primeiro lugar o que sou, o respeito pela minha essência, o que é importante para mim não pode ser nunca algo que me magoe. E porque às vezes é preciso abrir mão acreditando que voltará melhor e mais forte. Porque se fechar a porta nos dias de Inverno, depressa chegará a Primavera  - soalheira sem correntes de ar -  em que não só a porta como as janelas poderão estar abertas, abertas de par em par.

Aguardo pela Primavera e estou de braço esticado, com a palma da mão aberta.